Tensões e convergências pastorais: Contribuições a partir do recorte da Pesquisa Nacional de Evangelização da Juventude da CNBB

Por: Filipe Henrique Santos Peixoto

Nos últimos dias, foi divulgado um recorte parcial da Pesquisa Nacional de Evangelização da Juventude, elaborada pela Comissão Episcopal para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a coordenação do Observatório de Juventudes da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em diferentes páginas e perfis digitais, porém, um recorte do recorte da pesquisa ganhou eco: “Os jovens querem mais zelo com a liturgia e menos envolvimento político dentro da Igreja”. Esse eco encontrou alguns alto-falantes e mobilizou diferentes atores sociais, seja para endossá-lo rapidamente, seja para rebatê-lo. Entretanto, como acontece diante de qualquer investigação, é preciso olhar com cuidado para os dados, para o modo como foram produzidos e, principalmente, para aquilo que eles permitem ou não afirmar. Nesse sentido, buscamos tecer algumas contribuições e arriscar alguns pitacos para as reflexões que nascem a partir dessa pesquisa, sem a pretensão de esgotar suas possibilidades de leitura (CNBB, 2026) ou definir o que é certo ou errado.

Nos últimos anos, diversas pesquisas robustas sobre as juventudes vêm sendo divulgadas, entre elas o Atlas das Juventudes (2021), construído, em suas diferentes etapas, pela FGV Social, pela TALK INC. e pelo Instituto Veredas; Juventudes Brasileiras Minorizadas (2026), desenvolvida pela Fundação Roberto Marinho e pelo Itaú Educação e Trabalho, em parceria com o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (IEDE) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef); Vulnerabilidades e resistências entre as juventudes brasileiras em contextos de desigualdades (2025), elaborada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Brasil) e pela Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI); Next Generation Brasil (2025), desenvolvida pelo British Council; e Quem são e o que pensam os jovens brasileiros: material para estimular o debate em rodas de conversa (2026), produzida pela SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo, em parceria com o Instituto de Pesquisa IDEIA e a Juventude Fogo no Pavio. Diante desse conjunto, consideramos importante olhar para a pesquisa desenvolvida pela CNBB não de forma isolada, mas como mais um substrato relevante para compreendermos a vida juvenil e apontarmos caminhos para a evangelização com as juventudes.

Um primeiro cuidado diz respeito ao público alcançado pela investigação. A pesquisa da CNBB contou com 11.498 participantes, dos quais 98,3% se declararam católicos, 68,5% afirmaram participar semanalmente da missa e aproximadamente 84% estavam vinculados a algum grupo católico. Portanto, os dados não representam toda a juventude brasileira, nem mesmo todas as juventudes católicas, mas revelam, sobretudo, as percepções de jovens que mantêm alguma proximidade com os espaços eclesiais. Essa delimitação não diminui a importância da pesquisa; ao contrário, ajuda-nos a compreender com maior precisão o que ela pode nos dizer.

Quando colocados em diálogo com as pesquisas nacionais, os dados da CNBB reforçam que as experiências juvenis são atravessadas pelas condições sociais, econômicas, educacionais e territoriais nas quais os jovens constroem suas trajetórias. Embora mais de 82% dos participantes estivessem estudando e 65,4% exercessem alguma atividade de trabalho, metade precisava conciliar estudo e trabalho, enquanto 77,2% pertenciam a famílias com renda de até seis salários mínimos (CNBB, 2026). Pesquisas como Juventudes Brasileiras Minorizadas e Vulnerabilidades e resistências ampliam essa realidade ao evidenciarem os efeitos da pobreza, da desigualdade racial, da informalidade, da violência e das dificuldades de acesso e permanência na educação sobre as trajetórias juvenis (Fundação Roberto Marinho; Itaú Educação e Trabalho; IEDE, 2026; Abramovay; Sales, 2025). Isso significa que a evangelização não acontece fora da vida concreta: o jovem que chega ao grupo de jovens, à missa ou a outra atividade eclesial carrega consigo o cansaço do trabalho, a insegurança financeira, as pressões escolares, as responsabilidades familiares e as marcas do território onde vive.

Lidos a partir dessa vida concreta, os dados também impedem que a relação entre evangelização e compromisso social seja reduzida a uma disputa abstrata. As desigualdades, o trabalho precário, a violência, o racismo e as dificuldades educacionais não estão fora da experiência de fé dos jovens, mas atravessam suas possibilidades de participação, pertencimento e construção do futuro. Quando a Igreja se aproxima dessas realidades, não está necessariamente se afastando de sua missão evangelizadora ou substituindo o anúncio do Evangelho por uma agenda política, está, antes, reconhecendo que o Evangelho se dirige a pessoas concretas, inseridas em relações sociais marcadas por desigualdades, conflitos e possibilidades de transformação. A questão, portanto, talvez não seja escolher entre evangelização e compromisso social, mas refletir sobre como esse compromisso se relaciona com a espiritualidade, a vida comunitária e o encontro com Jesus Cristo.

Outro aspecto importante apresentado pela pesquisa da CNBB diz respeito à saúde mental. No levantamento, mais da metade dos jovens não apresentam uma percepção plenamente positiva do próprio bem-estar emocional: 30,8% afirmaram não se sentir emocionalmente bem, 36,7% manifestaram insegurança e 37,6% relataram dificuldades de memória ou atenção (CNBB, 2026). Na pesquisa Quem são e o que pensam os jovens brasileiros, ansiedade e depressão aparecem como o principal problema percebido pelas juventudes, mencionadas por 38% dos participantes (SoU_Ciência, 2026). Não estamos, portanto, diante de uma questão periférica ou passageira, mas de uma realidade que interfere na maneira como os jovens estudam, trabalham, estabelecem vínculos, projetam o futuro e vivem a própria fé.

Ao mesmo tempo, a pesquisa da CNBB evidencia que a espiritualidade, as amizades e a participação comunitária podem constituir importantes espaços de sustentação da vida. Para 64% dos jovens, a espiritualidade ajuda no enfrentamento das dificuldades emocionais; 55,8% reconhecem que a participação pastoral os fortalece e 52,5% destacam a importância das amizades (CNBB, 2026). Esses dados se aproximam das reflexões do Atlas das Juventudes, no qual a fé, a espiritualidade e a participação em grupos religiosos aparecem como experiências capazes de produzir pertencimento, vínculos e sentidos para a vida, ainda que esses sentidos nem sempre estejam restritos às formas institucionais de participação religiosa (Atlas das Juventudes, 2021).

Reconhecer a importância da espiritualidade não significa substituir o acompanhamento psicológico ou os serviços especializados por práticas religiosas, mas compreender que uma comunidade acolhedora pode ajudar o jovem a romper o isolamento, elaborar suas experiências e encontrar pessoas dispostas a caminhar ao seu lado. Nesse sentido, um caminho pastoral possível consiste em formar lideranças para a escuta, estabelecer redes com profissionais e serviços de saúde e, sobretudo, superar discursos que interpretam o sofrimento emocional como falta de fé, fragilidade espiritual ou ausência de oração. A pastoral pode ser um espaço de cuidado, mas esse cuidado exige reconhecer seus próprios limites e construir relações com outros campos profissionais e institucionais.

A questão da participação também merece atenção, apesar da forte vinculação dos participantes a grupos católicos, somente 32% consideram que esses espaços conduzem a mudanças efetivas, enquanto 28% percebem que os jovens são chamados apenas para executar tarefas. Entre aqueles que não participam de grupos, 55,3% afirmam não encontrar propostas adequadas à sua idade ou etapa de vida (CNBB, 2026). Essa percepção de mão de obra, ou de descrença em mudanças a partir da experiência juvenil, encontra eco na pesquisa Next Generation Brasil: quando os jovens são questionados sobre o campo cívico e político, apenas 5% dos entrevistados afirmaram acreditar que as vozes juvenis são ouvidas e transformadas em ações concretas, enquanto mais da metade declarou sentir-se ignorada ou consultada apenas superficialmente (O’Sullivan; Coelho, 2025). Embora as duas pesquisas tratem de espaços diferentes, ambas indicam um sentimento evidente, que muitos jovens têm a sensação de falar sem serem ouvidos ou, ainda pior, de serem ouvidos sem que sua palavra produza consequências.

Nesse sentido, a evangelização com as juventudes não pode ser reduzida à execução de atividades planejadas pelos adultos. Ela exige reconhecer os jovens como sujeitos eclesiais, capazes de interpretar a realidade, formular perguntas, produzir conhecimentos, participar das decisões e recriar as próprias práticas pastorais. Uma Igreja que se pretende sinodal precisa aprender a construir com os jovens, e não somente para eles. Isso envolve rever horários e formatos, acolher diferentes linguagens, considerar as distintas etapas da vida juvenil e permitir que a escuta produza consequências visíveis. Quando a palavra do jovem não altera nenhuma decisão, a escuta corre o risco de se tornar apenas uma estratégia discursiva e o protagonismo juvenil pode ser reduzido à distribuição de tarefas, sem que os jovens participem efetivamente da construção dos caminhos pastorais

Essa reflexão também alcança as relações familiares e os projetos de futuro. Para 65,1% dos participantes, a entrada na fé católica aconteceu por meio dos pais ou avós, confirmando a importância da transmissão intergeracional. Entretanto, 69% não vivem em um arranjo familiar classificado pela pesquisa como “biparental tradicional” (CNBB, 2026). Esse dado convida a Igreja a reconhecer as famílias concretas, marcadas por separações, recomposições, presença dos avós e diferentes redes de cuidado, evitando transformar um modelo idealizado em critério de acolhimento e pertencimento. A família continua sendo um espaço importante de transmissão da fé, mas essa transmissão acontece em configurações plurais, atravessadas por tensões, fragilidades e distintas formas de cuidado.

Da mesma forma, quando os jovens apontam o futuro, a carreira profissional e o discernimento vocacional entre suas preocupações, mostram que a vocação não pode ser abordada de maneira separada do estudo, do trabalho, da renda, da saúde emocional e das responsabilidades familiares. Essa preocupação se aproxima dos dados da Next Generation Brasil, que evidenciam o peso da segurança financeira, das oportunidades profissionais e das incertezas em relação ao futuro nas escolhas juvenis (O’Sullivan; Coelho, 2025). A pergunta vocacional precisa ajudar o jovem a descobrir como construir uma vida com sentido, dignidade, vínculos e compromisso com o mundo. O discernimento vocacional nasce do encontro com Deus, mas se desenvolve no interior das condições concretas de existência.

Por fim, precisamos retornar ao recorte que ganhou maior repercussão. Nas respostas abertas da pesquisa aparecem tanto pedidos por maior valorização da liturgia, da tradição e dos ensinamentos da Igreja quanto críticas ao modo como as questões sociais e políticas são abordadas nos espaços eclesiais (CNBB, 2026). Entretanto, transformar respostas abertas, posteriormente agrupadas em categorias, na afirmação generalizante de que “os jovens querem menos política e mais cuidado com a liturgia” pode esconder a complexidade das próprias respostas e produzir uma homogeneidade que os dados não sustentam. As respostas não constituem uma votação entre liturgia e política, nem autorizam a divisão dos jovens em dois grupos uniformes e opostos. Elas expressam inquietações diversas, produzidas por jovens inseridos em diferentes experiências eclesiais, sociais e territoriais.

Talvez a questão mais fecunda não seja escolher entre liturgia e compromisso social, mas compreender por que essas dimensões estão sendo percebidas como opostas. Por um lado, a reivindicação por maior cuidado com a liturgia, a formação e os ensinamentos da Igreja não pode ser simplesmente desconsiderada, pois indica a busca por experiências religiosas capazes de produzir sentido, pertencimento e profundidade espiritual. Por outro, essa busca não precisa conduzir ao esvaziamento da dimensão social do Evangelho. Uma evangelização enraizada na Palavra, na Eucaristia, na espiritualidade e na experiência comunitária não pode se afastar da justiça, do cuidado com os pobres, da defesa da vida e da responsabilidade diante da criação. Do mesmo modo, a atuação social e política da Igreja perde sua especificidade quando deixa de nascer do encontro com Jesus Cristo e da espiritualidade que sustenta a esperança. Mais do que estabelecer uma oposição, o desafio pastoral consiste em construir uma articulação na qual a liturgia alimente o compromisso com a vida e esse compromisso encontre na fé seu sentido e sua sustentação.

Talvez a principal contribuição desse recorte não esteja em confirmar uma frase de efeito sobre aquilo que “os jovens querem”, mas em ampliar as perguntas que a Igreja precisa fazer sobre sua presença junto às juventudes. Quando transformada em slogan, a pesquisa tende a reforçar posições já estabelecidas e a servir como argumento para disputas internas que antecedem a própria escuta. Quando acolhida como oportunidade de reflexão, porém, pode provocar deslocamentos, revelar ausências e ajudar a rever práticas pastorais.

A pesquisa da CNBB, em diálogo com as demais investigações, e as várias produções acadêmicas tendo as Juventudes como interlocutores, convida-nos a construir uma Igreja mais próxima, diversa e participativa: uma pastoral que cuide da saúde mental sem espiritualizar o sofrimento; que acompanhe as famílias a partir de suas configurações reais; que relacione vocação, estudo, trabalho e projeto de vida; que reconheça os jovens como participantes das decisões; que articule espiritualidade e compromisso social; e que vá ao encontro daqueles que não aparecem nem nas pesquisas, e nem frequentam os espaços eclesiais. Mais do que oferecer respostas prontas, evangelizar as juventudes significa caminhar com elas, reconhecer suas dores, esperanças e resistências, compartilhar suas perguntas e construir comunidades nas quais cada jovem encontre acolhida, sentido, participação e condições para viver e anunciar sua fé.

Referências

ABRAMOVAY, Miriam; SALES, Marcos Vinícius (org.). Vulnerabilidades e resistências entre as juventudes brasileiras em contextos de desigualdades. Brasília, DF: Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, 2025.

S. ATLAS DAS JUVENTUDES. Atlas das Juventudes: evidências para a transformação das juventudes. l.]: Atlas das Juventudes, 2021. em: https://atlasdasjuventudes.com.br/wp-content/uploads/2021/11/ATLAS-DAS-JUVENTUDES2021-COMPLETO.pdf. Acesso em: 24 jul. 2026.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Comissão Episcopal para a Juventude. Pesquisa Nacional Evangelização da Juventude no Brasil – 2025: recorte parcial. Brasília, DF: CNBB, 2026. 20 slides. Apresentação.

FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO; ITAÚ EDUCAÇÃO E TRABALHO; INTERDISCIPLINARIDADE E EVIDÊNCIAS NO DEBATE EDUCACIONAL. Juventudes brasileiras minorizadas: análises sobre educação e trabalho para incidência em políticas públicas. [Rio de Janeiro]: Fundação Roberto Marinho, 2026. Disponível em: https://www.frm.org.br/conteudo/mobilizacao-social/publicacao/juventudes-brasileiras-minori zadas. Acesso em: 24 jul. 2026.

O’SULLIVAN, Sarah; COELHO, Aline. Next Generation Brasil. [S. l.]: British Council, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.57884/EWC3-K441. Acesso em: 24 jul. 2026.

SOU_CIÊNCIA. Quem são e o que pensam os jovens brasileiros: material para estimular o debate em rodas de conversa. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2026. Disponível em: https://repositorio.unifesp.br/items/4a71d6f5-c80d-42f7-b18c-46a394e3281c. Acesso em: 24 jul. 2026.

Edinei Malagutti

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